Enquanto faíscas e fumaça são bem visíveis, o risco de choque elétrico durante a soldagem costuma ser subestimado. Uma contribuição da Fronius Welding mostra o quão perigosos são a tensão em vazio, as correntes de passagem e as correntes de solda arrastadas – e quais medidas de proteção são indispensáveis no dia a dia do trabalho.

Quando soldadores especializados trabalham simultaneamente com várias máquinas de solda em uma peça ou em componentes condutivamente conectados, a tensão de contato gerada – especialmente a tensão em vazio – pode atingir valores indevidamente altos. | Imagem: Fronius International GmbH
Quando soldadores especializados trabalham simultaneamente com várias máquinas de solda em uma peça ou em componentes condutivamente conectados, a tensão de contato gerada – especialmente a tensão em vazio – pode atingir valores indevidamente altos. | Imagem: Fronius International GmbH
2025-09-11

Ao pensar na soldagem manual, costumam surgir imagens de arcos de luz cintilantes, faíscas voando e fumaça que se eleva. Cenas impressionantes como estas moldam a imagem da soldagem – muitas vezes percebida como perigosa e áspera. Mas essa imagem é simplista: De fato, riscos visíveis como radiação do arco, respingos de metal quente ou fumaça de solda podem ser muito bem controlados com equipamentos de proteção modernos e padrões de segurança claros. Soldadores/as profissionais estão bem equipados — com capacetes, luvas e roupas de proteção que os protegem de forma confiável contra influências externas. Contudo, o que muitas vezes é subestimado é o perigo invisível: a corrente elétrica.

Já um curto momento de desatenção pode trazer consequências graves: Um chamado repentino – um giro reflexo e a mão desprotegida alcança o eletrodo de barra. Consequência: o corpo passa a fazer parte do circuito. Calçados de proteção isolantes ou um tapete de borracha nitrílica interrompem, nesses casos, o fluxo de corrente e protegem de forma confiável.

A corrente elétrica sempre toma o caminho mais curto entre o ponto de entrada e o de saída no corpo. Se ela atravessar, por exemplo, as duas mãos, a corrente não percorre apenas os braços e o tronco, mas também órgãos vitais como o coração – com consequências potencialmente fatais (Figura 1).

Atenção à tensão em vazio

Apesar de, em equipamentos elétricos comerciais, as partes energizadas serem protegidas contra toque, no soldamento por arco elétrico há um risco aumentado: a tensão em vazio pode tornar-se tensão de toque perigosa – principalmente quando, simultaneamente, a peça (massa) e o eletrodo ou partes não isoladas do suporte do eletrodo são tocados. Nesse caso, fala-se na passagem de corrente pelo corpo humano.

Para a tensão em vazio, existem limites máximos estabelecidos, dependendo das condições de uso. Um perigo elétrico para o ser humano começa já com tensões acima de 25 volts de corrente alternada (valor eficaz) ou 60 volts de corrente contínua, desde que haja simultaneamente um fluxo de corrente suficientemente alto.

Mesmo correntes relativamente baixas são perigosas

Quando a corrente elétrica percorre o corpo humano, ela provoca irritação nos músculos, nervos e no sistema circulatório. Possíveis consequências vão desde espasmos musculares e parada respiratória até as chamadas marcas de corrente – pequenas queimaduras pontuais nos pontos de entrada e saída da corrente. Já a partir de 30 mA, há risco de vida agudo. O “limite de liberação” fica entre 10 e 15 mA para corrente alternada e, para corrente contínua, cerca de 50 mA. Se esse limiar for excedido, os espasmos musculares podem ser tão fortes que as pessoas afetadas não conseguem mais soltar as partes condutoras sem ajuda externa – um risco particularmente alto para profissionais de soldagem no cotidiano de trabalho.

A corrente alternada é consideravelmente mais perigosa do que a corrente contínua, pois pode afetar o ritmo cardíaco e provocar fibrilhação ventricular. Frequentemente subestimado também é que correntes relativamente baixas entre 1 e 10 mA são suficientes para causar movimentos reflexos involuntários, que muitas vezes resultam em acidentes secundários. Por

exemplo, tais reações descontroladas poderiam levar à queda de uma escada ou a outros ferimentos.

Além da intensidade da corrente, o tempo de exposição ao corpo humano desempenha um papel crucial no risco de lesões. Quanto mais tempo o fluxo de corrente continua, mais graves são as consequências para a saúde. Por isso é essencial que os profissionais de soldagem usem sempre equipamento de proteção adequado. Na Europa, luvas de solda devem atender aos requisitos da norma EN 12477, enquanto sapatos de proteção devem cumprir a classe de proteção S3 de acordo com EN ISO 20345.

Como se determina o perigo?

A corrente elétrica (I) depende da tensão aplicada (U) e da resistência (R) e segue a lei de Ohm (U = R x I). Para determinar a corrente, pode-se assumir uma resistência corporal (sem equipamento de proteção) de 1.000 ohms de mão em mão ou de mão a pé. Se o equipamento de solda, segundo a etiqueta de tipo, tiver uma tensão de circuito em aberto de 50 V, conforme a lei de Ohm (I = U / R), pode fluir uma corrente de 50 mA, capaz de colocar a vida em risco, através do corpo.

Cuidado ao soldar com vários aparelhos de solda

Se profissionais de soldagem trabalham simultaneamente com vários aparelhos de solda em uma peça ou em componentes conectados condutivamente, a tensão de toque resultante – especialmente a tensão em vazio – pode alcançar valores inadequados. Esse estado perigoso muitas vezes não é imediatamente perceptível.

Especialmente crítico é quando se solda simultaneamente com polaridade diferente: No soldamento por corrente contínua (DC), as tensões em vazio dos dispositivos de solda envolvidos somam-se, o que pode levar a valores de tensão perigosamente altos.

“Especialmente em canteiros de obras, isso não é incomum”, relata Franz Bichler, treinador de soldagem da Fronius International. “Antigamente, costumávamos soldar componentes de vários metros de comprimento a dois ou três operários — em componentes complexos, também com polaridade diferente, para obter resultados ótimos. Se, nessas situações, a aterragem estiver incorreta, a tensão somada pode fluir através do corpo do profissional de soldagem — com consequências potencialmente fatais, como choques elétricos, arritmias cardíacas ou queimaduras graves.”

Ao soldar com corrente alternada (AC), tanto a polaridade dos circuitos de corrente quanto a conexão à rede dos dispositivos afetam a tensão de vazio resultante. Sob condições adversas, a tensão de toque pode aumentar até a soma de todas as tensões de vazio dos dispositivos usados. Portanto, é essencial medir a tensão entre as pistolas de solda ou suportes de eletrodo antes de iniciar os trabalhos. A medição é realizada com um multímetro, com as duas pontas de prova colocadas diretamente nos bicos de solda (suportes de eletrodo) – (Figura 2).

O empregador tem obrigação de proteção e informações

Medidas de proteção eficazes podem prevenir acidentes de trabalho. A responsabilidade pela sua implementação recai, em princípio, sobre o empregador. Normas e regulamentos internacionais – como ISO (International Organization for Standardization), ASME (American Society of Mechanical Engineers), AWS (American Welding Society) e DIN (Deutsches Institut für

Normung) – constituem a base para condições de trabalho seguras.

Os profissionais de soldagem devem, em qualquer caso, ser informados sobre os perigos potenciais. A distância entre as extremidades de solda deve ser escolhida de modo a excluir o contato simultâneo com dois bicos de solda ou suportes de eletrodo. Se isso não for possível, as áreas de trabalho devem ser separadas por paredes divisórias isolantes. Além disso, através de medições adequadas, deve-se assegurar que a tensão somada não exceda o valor máximo permitido da tensão em vazio.

O que é preciso observar ao soldar?

Antes do início dos trabalhos, os profissionais de soldagem devem garantir que os dispositivos de solda usados estejam em perfeitas condições. Aqueles que não forem usados ou ficarem sem supervisão devem ser desligados e desconectados da rede. A operação deve sempre ser executada de acordo com o grau de proteção indicado pela placa de potência – respeitando o manual de operação correspondente.

Equipamentos com grau de proteção IP21 devem ser usados apenas em áreas internas secas. Para uso ao ar livre, é necessária, no mínimo, a proteção IP23. O cabo de aterramento deve ser conectado o mais próximo possível da área de solda — seja diretamente na peça de trabalho ou em seu apoio.

Em caso de falhas, o fornecimento de energia deve ser interrompido imediatamente, seja desligando ou puxando o plugue da rede. Danos nos equipamentos de solda, cabos de alimentação ou conjuntos de mangueiras devem ser comunicados imediatamente à supervisão de soldagem. Equipamentos com defeito não devem ser usados nem abertos por conta própria — especialmente não removendo a proteção.

Perigos causados por correntes de solda deslocadas

Um uso inadequado de equipamentos de solda pode trazer perigos consideráveis. Particularmente críticos são cabos de aterramento conectados incorretamente ou suportes de eletrodo deixados sobre a máquina de solda. Tais erros podem levar ao queimar condutores de proteção, de equipamentos de solda ou de outros dispositivos elétricos. Como interrupções de proteção muitas vezes não são visíveis externamente, representam um risco significativo para todos que trabalham com equipamentos danificados.

As causas mais comuns de interrupções do condutor de proteção e acidentes resultantes são imprudência e falta de atenção. Exemplos típicos são suportes de eletrodo não isolados deixados sobre a máquina de solda, ou ferramentas elétricas que permanecem na mesa de solda (Figuras 3 e 4).

No entanto, quem observa as medidas de proteção previstas nas normas vigentes pode proteger-se eficazmente contra correntes de solda deslocadas. O retorno da corrente de solda (massa) deve ocorrer diretamente na peça ou em seu apoio – seja por meio de grampos ou usando imãs de fixação magnéticos. Outras peças, como vergalhões, correntes ou cabos de guindaste, jamais devem ser usados como retorno.

Se, excepcionalmente, as peças de trabalho precisarem ser soldadas penduradas pelo gancho de um guindaste, é necessária uma blindagem cuidadosa – por exemplo, por meio de cordas têxteis secas ou de um isolador giratório. Se, durante os trabalhos de soldagem suspensos, forem usados cestos de trabalho, eles devem ser isolados com isolamento adequado. Se estiver soldando

e usando ferramentas elétricas ao mesmo tempo, devem ser usados apenas dispositivos com isolamento de proteção.

Trabalhos sob tensão elétrica elevada

Em locais de trabalho com espaço de manobra restrito, há um risco aumentado de perigo elétrico. Isso é especialmente verdadeiro quando os profissionais de soldagem precisam trabalhar em posições forçadas – por exemplo, ajoelhados – e entram em contato com partes condutivas elétricas. Áreas que estejam completamente ou parcialmente cercadas por materiais condutivos também trazem perigos. Toques acidentais ou inevitáveis já podem levar a choques elétricos.

Para facilitar a avaliação de se existe um risco elevado durante a soldagem por arco, utiliza-se uma regra prática: se o espaço livre entre partes condutivas opostas for inferior a dois metros — em comprimento, largura, altura ou diâmetro — deve-se considerar um risco elétrico aumentado.

Cuidado especial é necessário em locais de trabalho molhados, húmidos ou quentes. Nesses ambientes, a resistência elétrica da pele, o vestuário de proteção e as ferramentas usadas podem ser significativamente reduzidos pela umidade ou pelo suor. Consideram-se 'úmidos' os locais de trabalho em que a roupa está encharcada e se torna condutiva — o que aumenta consideravelmente o risco de um choque.

Medidas de proteção em caso de maior risco elétrico

Ao realizar trabalhos sob maior perigo elétrico, devem ser usados apenas aparelhos de solda autorizados, rotulados com o símbolo [S]. Além disso, são necessárias medidas de proteção especiais: os profissionais de soldagem devem ficar protegidos por materiais isolantes ou entremeios contra partes condutivas elétricas, bem como contra pisos e paredes úmidos.

Se tal proteção não for possível devido a perigos adicionais – por exemplo riscos de queda – ou por condições de espaço restritas, só deve trabalhar com vestimenta de proteção seca e em bom estado. Em situações em que roupas sempre secas não puderem ser garantidas, como em ambientes quentes, no soldamento por arco manual é permitido somente o uso de dispositivos de corrente contínua.

A tensão em vazio dos aparelhos utilizados deve ser mantida o mais baixa possível – dependendo das tarefas de solda e das características dos dispositivos – e não deve exceder 75 V. Dispositivos de solda não devem ser posicionados na zona de perigo imediato. Para o controle remoto desses dispositivos deve ser usado um baixo nível de tensão de proteção (SELV).

Além disso, é necessário garantir que os soldadores não trabalhem sozinhos nesses trabalhos – exige-se supervisão de soldagem adequada. Soldagem sob maior risco elétrico é reservada apenas a profissionais qualificados.

Resumo e conclusão

A segurança tem prioridade máxima na soldagem. Um manuseio inadequado de equipamentos de solda pode trazer consequências graves – principalmente por causa de altas tensões em vazio, correntes de solda deslocadas ou trabalhos sob maior dano elétrico. No entanto, tais riscos podem ser significativamente reduzidos mediante a adoção consistente de medidas de proteção adequadas.

Atenção especial é necessária em locais de trabalho molhados, húmidos ou quentes, pois ali a eficácia da proteção de roupas e equipamentos pode ser comprometida. Caso ocorram falhas, devem ser tomadas medidas adequadas imediatamente para evitar danos a pessoas